Uma combinação de ômega-3 e ácido acetilsalicílico (AAS) em baixas doses teve um desempenho tão bom quanto os antibióticos em um estudo de um ano com pessoas com periodontite grave, levantando a possibilidade de um tratamento alternativo para alguns pacientes.
A pesquisa foi conduzida por cientistas associados à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e ao Hospital Israelita Albert Einstein, à Universidade de Guarulhos (UNG), à Universidade de Taubate (UNITAU) e à Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP (FORP-USP), no Brasil. As descobertas foram publicadas em Revista Periodontia.
Os investigadores dizem que os resultados poderão, em última análise, ajudar a reduzir o uso de antibióticos em pacientes seleccionados, uma consideração importante à medida que a resistência bacteriana se torna um problema de saúde global cada vez mais grave.
Periodontite grave pode danificar ossos e dentes
Apoiado pela FAPESP (projetos 20/05874-2 e 20/05875-9), o estudo clínico envolveu 109 pessoas com periodontite avançada acompanhadas durante um ano.
A periodontite é uma doença inflamatória crônica que se desenvolve quando bactérias se acumulam sob as gengivas e danificam os tecidos que mantêm os dentes no lugar. Em casos avançados, a doença pode destruir o osso de suporte, afrouxando os dentes e eventualmente causando a perda dentária.
“Pacientes com doença grave apresentam bolsas muito profundas, que funcionam como reservatório de bactérias associadas à doença. Essa é uma condição muito desafiadora de tratar”, afirma a cirurgiã-dentista Nidia Cristina Castro dos Santos, primeira autora do estudo e professora e pesquisadora do Einstein.
Os pesquisadores compararam quatro estratégias de tratamento
Os participantes foram divididos aleatoriamente em quatro grupos. Todos receberam instrumentação subgengival, popularmente conhecida como raspagem, que é tratamento padrão para periodontite. Este procedimento remove depósitos bacterianos e outros materiais abaixo das gengivas.
O que diferiu entre os grupos foi o tratamento adicional que receberam.
Os participantes do grupo de controle receberam versões placebo de antibióticos, ômega-3 e AAS, embalados em cápsulas que pareciam tratamentos ativos.
O outro grupo recebeu os antibióticos metronidazol e amoxicilina. Esta combinação tem algumas das mais fortes evidências científicas que apoiam o seu uso na periodontite grave. Os pacientes tomaram antibióticos três vezes ao dia durante 14 dias.
O terceiro grupo recebeu três gramas de ômega-3 todos os dias junto com uma dose diária de aspirina durante seis meses.
O quarto grupo recebeu ambas as abordagens, tomando antibióticos durante duas semanas, bem como seguindo uma dieta com ômega-3 e AAS durante seis meses.
Os pesquisadores reavaliaram os participantes após três, seis e doze meses.
Ômega-3 e aspirina são quase idênticos aos antibióticos
Após um ano, cerca de 58% dos pacientes tratados com antibióticos atingiram a meta clínica estabelecida pelos pesquisadores. Essa meta foi definida como não mais do que quatro bolsas periodontais profundas restantes.
Os grupos ômega-3 e AAS alcançaram resultados quase idênticos, com 57,7% dos participantes atingindo a mesma meta.
Apenas a diferença em comparação com o tratamento padrão foi substancial. Dos pacientes que receberam raspagem mais placebo, apenas 23,1% atingiram a meta clínica.
Surpreendentemente, o uso de antibióticos com ômega-3 e AAS não proporcionou nenhum benefício adicional em relação a qualquer uma das estratégias isoladamente.
Castro dos Santos afirma: “O uso de antibióticos não é considerado padrão ouro de tratamento. Embora o metronidazol e a amoxicilina apresentem bons resultados nos casos mais graves, seu uso deve ser avaliado caso a caso devido aos riscos relacionados à resistência bacteriana e aos potenciais efeitos adversos”.
Pesquisas anteriores apontaram para o potencial do ômega-3
As descobertas baseiam-se em trabalhos anteriores que examinaram os ômega-3 e a inflamação na doença periodontal.
Em estudo anterior apoiado pela FAPESP publicado Em relatório científicoOs pesquisadores descobriram que a suplementação de ômega-3 reduziu a inflamação e a perda óssea associada à doença periodontal em ratos. O efeito foi particularmente perceptível quando a suplementação foi combinada com exercício físico.
Como essa pesquisa utilizou um modelo animal, não foi possível estabelecer se os mesmos efeitos ocorreriam nas pessoas. No entanto, forneceu evidências de que o ômega-3 pode influenciar os processos inflamatórios envolvidos nas doenças bucais.
Ajudando a aliviar a inflamação no corpo
Segundo Castro, o ômega-3 funciona de forma diferente dos antiinflamatórios tradicionais.
Em vez de bloquear vias inflamatórias específicas, os ómega-3 podem contribuir para a produção de moléculas que ajudam o corpo a eliminar naturalmente a inflamação e a promover a reparação dos tecidos.
O AAS em baixas doses foi incluído porque pode aumentar a produção dessas moléculas que resolvem a inflamação. Assim, os pesquisadores suspeitam que a combinação de ômega-3 com AAS pode ajudar o corpo a controlar melhor a inflamação persistente associada à periodontite.
“Nós levantamos a hipótese de que a combinação de antibióticos e ômega-3 seria mais eficaz no controle da periodontite nesses pacientes. Também levantamos a hipótese de que os resultados do grupo que usou ômega-3 com AAS seriam ligeiramente inferiores aos do grupo de antibióticos.
Os benefícios continuarão mesmo após o término do tratamento
Os pesquisadores também ficaram surpresos com a duração dos benefícios aparentes.
Os participantes que tomaram ômega-3 e AAS continuaram apresentando resultados semelhantes aos observados ao final do tratamento seis meses após a interrupção da suplementação.
Segundo Castro, a persistência dos efeitos levanta a possibilidade de que mudar a forma como o corpo responde à inflamação possa trazer benefícios duradouros. Os pesquisadores ainda estão investigando como isso poderia acontecer.
Para a cirurgiã-dentista Magda Fares, autora principal do estudo e professora titular do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da Harvard School of Dental Medicine e da UNG, os resultados sugerem que o direcionamento da resposta inflamatória pode ser mais uma opção para alguns pacientes.
Ela diz: “A combinação de ômega-3 e aspirina em baixas doses alcançou benefícios clínicos equivalentes ao protocolo de metronidazol e amoxicilina, abrindo uma opção real para aqueles que não podem tomar antibióticos, especialmente para pacientes com alergias ou intolerâncias a esses medicamentos”.
Uma possível maneira de reduzir o uso de antibióticos
A capacidade de tratar alguns casos sem antibióticos é particularmente relevante, uma vez que a resistência aos antibióticos é considerada uma das principais ameaças à saúde pública global.
Quando as bactérias são expostas repetidamente a antibióticos, as cepas que sobrevivem ao medicamento podem se espalhar, tornando a infecção mais difícil de tratar. Reduzir o uso desnecessário de antibióticos é, portanto, uma importante meta de saúde pública.
“Demonstrar que é possível tratar a periodontite grave modulando a resposta do próprio corpo é uma informação nova e relevante que ajuda a preservar os antibióticos quando eles são realmente inevitáveis”, diz Fares.
mais evidências necessárias
Apesar dos resultados promissores, os investigadores enfatizam que os ómega-3 e a aspirina ainda não devem ser vistos como substitutos de rotina dos antibióticos na periodontite grave.
O ensaio clínico incluiu pacientes que não apresentavam doença sistêmica ou oral significativa. Serão necessários estudos adicionais para determinar se os resultados são verdadeiros em populações mais amplas e diversas, e para estabelecer quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiarem mais de cada estratégia de tratamento.
Os pesquisadores também estão realizando análises microbiológicas para entender o que acontece com as bactérias dentro das bolsas periodontais durante o tratamento.
Descobertas preliminares sugerem que a terapia pode reduzir as espécies bacterianas associadas à doença periodontal, ao mesmo tempo que aumenta os microrganismos associados às gengivas saudáveis.
“Este é um passo importante, mas não o fim da história. Portanto, a mensagem é de otimismo cauteloso: temos uma alternativa promissora e cientificamente plausível aos antibióticos em casos selecionados. Serão necessárias mais evidências para a substituição de rotina”, conclui ela.



