Existem mais de 4.000 espécies de cobras vivas hoje, todas descendentes de ancestrais de lagartos fortemente modificados. No entanto, os cientistas ainda não compreendem completamente como as cobras desenvolveram os seus corpos longos e sem membros. Como os primeiros fósseis de cobras são raros, os investigadores têm lutado para determinar que ambientes e comportamentos moldaram a sua evolução.
Durante muitos anos, o debate centrou-se em duas possibilidades principais. Alguns cientistas propuseram que as cobras primeiro se tornaram alongadas e sem membros enquanto se adaptavam à vida subterrânea, enquanto outros argumentavam que o plano corporal surgiu em ambientes aquáticos. Nova pesquisa publicada Natureza Sugerindo que a resposta era mais complexa. Parece que as primeiras cobras ocuparam múltiplos habitats e desenvolveram diferentes adaptações sensoriais, em vez de seguirem um único caminho ecológico.
“As nossas descobertas mostram que as primeiras cobras alcançaram uma diversidade ecológica e morfológica notável no Cretáceo Superior, há cerca de 80 milhões de anos”, diz o principal autor do estudo, Tiago Simões, professor assistente na Universidade de Princeton.
Uma cobra antiga excepcionalmente preservada
Os pesquisadores examinaram uma espécie de cobra recém-identificada em depósitos do Cretáceo Superior no sudeste do Brasil, cerca de 80 milhões de anos atrás. Esta espécie, chamada Tametara mirim, é representada por um dos mais completos esqueletos fósseis de cobra já descobertos.
Usando tomografia computadorizada e renderização cinematográfica em 3D, a equipe criou uma reconstrução digital detalhada do espécime. As varreduras revelaram características do endocast do crânio, vértebras e cérebro que teriam sido difíceis de estudar apenas a partir dos ossos expostos.
A pesquisadora de pós-doutorado Simone Macro e o diretor de pesquisa Nicolas De-Poi do Instituto Highlife de Ciências da Vida de Helsinque, da Universidade de Helsinque, dirigiram a reconstrução e o estudo comparativo da anatomia cerebral. Seu trabalho vinculou a neuroanatomia das primeiras cobras às suas habilidades sensoriais, habitat e história evolutiva.
Cérebros fósseis revelam estilos de vida diversos
A equipe comparou Tametara com Dinilisia patagonica, outra cobra fóssil descoberta na Argentina. A comparação revelou que as duas espécies tinham estruturas cerebrais muito diferentes, sugerindo que estavam adaptadas a diferentes modos de vida.
“Os tamanhos do cérebro de ambas eram surpreendentemente diferentes entre si e da maioria das outras cobras estudadas. O tamanho do cérebro e a microestrutura óssea apontam para a mesma conclusão: Tametara foi adaptada para escavar, Dinilicia para a vida em terra. Combinadas com evidências de sedimentos marinhos, as descobertas revelam múltiplas transições entre estilos de vida escavadores, terrestres e marinhos na evolução inicial das cobras. As diferentes linhagens divergiram muito antes do que se pensava anteriormente. Habitats descobertos”, concluiu o diretor de pesquisa Nicolas De-Poy.
As descobertas indicam que a evolução inicial das cobras envolveu movimentos repetidos entre ambientes subterrâneos, terrestres e marinhos. Em vez de avançar em direção a uma forma corporal ou sistema sensorial padrão, diferentes linhagens de cobras desenvolveram adaptações a diferentes ambientes ecológicos.
“O cérebro conta uma história muito mais rica do que o esqueleto sozinho. Ao combinar reconstruções cerebrais baseadas em tomografia computadorizada com dados de cobras vivas, podemos mostrar que as primeiras cobras não estavam simplesmente se movendo em direção a um estado moderno, mas também experimentavam diferentes estratégias sensoriais e ecológicas. Isso significa que as primeiras cobras não seguiram um único caminho evolutivo”, diz a pesquisadora Simone Macron.
Uma visão abrangente da evolução das cobras
O estudo foi liderado por Tiago Simões, da Universidade de Princeton, acompanhado pelos autores seniores Nicolas De-Poi, da Universidade de Helsinque, e Anne Hsiu, da Universidade de São Paulo, e uma equipe internacional de colaboradores.



