Uma nova pesquisa da Universidade de Nagoya, no Japão, identificou um risco anteriormente negligenciado associado a uma pomada ocular amplamente utilizada. Estudos mostram que a pomada ocular à base de petrolato, um implante popular para glaucoma, pode causar inchaço e, em alguns casos, ruptura. Utilizando casos de pacientes e testes laboratoriais, os investigadores demonstraram que estas pomadas podem comprometer o microshunt PRESERFLO, um dispositivo actualmente utilizado para tratar o glaucoma em mais de 60 países.
Este é o primeiro estudo a combinar observações clínicas com evidências experimentais para vincular claramente as pomadas oculares à base de petrolato com danos estruturais a tais implantes.
Glaucoma e o papel dos microshunts
O glaucoma é uma doença ocular crônica que danifica o nervo óptico e pode resultar em perda permanente da visão. Essa condição geralmente é causada por alta pressão dentro do olho quando a drenagem do líquido é interrompida. Os pesquisadores estimam que o glaucoma afeta cerca de 76 milhões de pessoas em todo o mundo.
Uma opção de tratamento é o MicroShunt, um pequeno dispositivo de filtração implantado cirurgicamente no olho para drenar o excesso de líquido com mais eficácia. Em comparação com a cirurgia tradicional de glaucoma, os microshunts estão associados a menos complicações pós-operatórias e muitas vezes reduzem a necessidade de medicação contínua.
Por que o material do implante pode ser afetado?
O MicroShunt é fabricado a partir de um elastômero termoplástico estirênico feito de um polímero em bloco de poliestireno-bloco-poliisobutileno-bloco-poliestireno (SIBS). Este material foi projetado para ser flexível, altamente biocompatível e com menor probabilidade de causar inflamação ou cicatrizes no interior do olho.
Ao mesmo tempo, o material é suscetível ao contato com substâncias à base de hidrocarbonetos e óleos. Por ter forte afinidade com o óleo, as pomadas oculares à base de petrolato podem penetrar no implante. Quando partículas de óleo penetram no material, o dispositivo pode inchar e sofrer alterações no seu tamanho e resistência mecânica.
Os avisos do fabricante são frequentemente ignorados
Os fabricantes do MicroShunt alertam especificamente contra tal exposição. De acordo com as instruções, “o MicroShunt não deve entrar em contato direto com materiais à base de petrolato (ou seja, vaselina), como pomadas e dispersões.” Apesar dessas diretrizes, as precauções nem sempre são amplamente aceitas ou seguidas de forma consistente em ambientes clínicos.
“Microshunts inchados podem ser estruturalmente frágeis”, disse Ryo Tomita, oftalmologista e professor assistente da Escola de Medicina da Universidade de Nagoya, primeiro autor do estudo. “Durante a cirurgia, notei uma ruptura num microshunt inchado. Se mais médicos estivessem conscientes deste risco, seriam capazes de prevenir problemas semelhantes.”
Colaboração entre medicina e engenharia
Para investigar o problema mais de perto, Tomita trabalhou com o professor assistente Taiga Inoka e o professor associado Kenya Yuki do Hospital Universitário de Nagoya e da Escola de Pós-Graduação em Medicina. Eles colaboraram com o Dr. Takato Kajita e o professor associado júnior Atsushi Noro da Escola de Pós-Graduação em Engenharia para estudar como o microshunt muda após o contato com pomadas oculares à base de petrolato.
As equipes médicas analisaram casos de pacientes, enquanto pesquisadores de engenharia conduziam testes laboratoriais. Os resultados foram publicados nos Arquivos de Graeff para Oftalmologia Clínica e Experimental.
Evidência clínica de casos de pacientes
A análise clínica envolveu sete pacientes com glaucoma cujos implantes microshunt foram posteriormente removidos por vários motivos. Um padrão claro surgiu com base no fato de o implante ter sido exposto a pomada à base de petrolato.
Em três casos, o MicroShunt foi exposto além da conjuntiva e os pacientes foram tratados com pomada ocular à base de petrolato. Todos os três dispositivos apresentaram inchaço perceptível e dois deles romperam.
Nos outros três casos, o microshunt estava coberto por conjuntiva e não foi utilizada pomada. Esses implantes mantiveram sua estrutura original.
Um caso adicional foi particularmente revelador. Embora o MicroShunt tenha sido exposto fora da conjuntiva, nenhuma pomada foi aplicada. Neste caso, o implante não inchou. Este achado indica que o contato direto com a pomada, e não apenas a exposição conjuntival, é a principal causa do inchaço.
Exames laboratoriais confirmam o processo
Os exames laboratoriais reforçaram os achados clínicos. Os pesquisadores mergulharam os microshunts não utilizados em pomada ocular à base de petrolato para recriar as alterações observadas nos pacientes.
Medições microscópicas revelaram rápida expansão. Após 24 horas de exposição, o diâmetro externo do microshunt aumentou para 1,44 vezes o seu tamanho original. A parte semelhante a uma barbatana do dispositivo foi expandida para 1,29 vezes suas dimensões originais.
Experimentos químicos explicaram por que essas mudanças ocorreram. Após 24 horas de imersão, o teor de óleo representou cerca de 45% do peso total do microshunt. Três meses depois, o volume de petróleo aumentou 73%.
Estes resultados confirmaram que o inchaço é provocado pela absorção de componentes da pomada à base de óleo no material do implante.
Implicações para o tratamento do glaucoma
Com base nas suas descobertas, os investigadores aconselham os médicos a evitarem a utilização de pomadas oculares à base de petrolato em pacientes com implantes de microshunt, especialmente quando o dispositivo é exposto para além da conjuntiva. Eles recomendam considerar tratamentos pós-operatórios alternativos e observam que são necessários mais estudos para determinar se o inchaço afeta a função do implante, mesmo sem ruptura.
“Nossa pesquisa mostra que materiais médicos comumente usados podem causar complicações inesperadas se suas propriedades químicas e ambiente de uso não forem totalmente compreendidos”, diz Noro. “Do ponto de vista médico e de engenharia, enfatizamos a importância de compreender as propriedades químicas dos materiais médicos e de gerenciar adequadamente o ambiente em que são usados.”



