As substâncias psicodélicas atuam no cérebro ligando-se aos receptores de serotonina. Os cientistas identificaram pelo menos 14 receptores diferentes que respondem ao neurotransmissor serotonina. Os psicodélicos são particularmente atraídos por um receptor conhecido como receptor 2A. Este receptor não só afeta a aprendizagem, mas também reduz a atividade em partes do cérebro responsáveis pelo processamento da informação visual.
“Mostramos em estudos anteriores que os processos visuais no cérebro são suprimidos por este receptor”, disse Calum White, primeiro autor do estudo. “Isso significa que a informação visual sobre as coisas que acontecem no mundo exterior se torna menos acessível à nossa consciência. Para preencher esta lacuna no quebra-cabeça, nosso cérebro insere peças da memória – ele alucina.”
Em outras palavras, quando o sinal visual recebido é reduzido, o cérebro compensa puxando da memória imagens e experiências armazenadas. Fragmentos gerados internamente podem se misturar à percepção, criando alucinações.
Ondas cerebrais lentas transferem a percepção para a memória
Os pesquisadores também descobriram como essa mudança se desenrola em tempo real. Os psicodélicos aumentam os padrões rítmicos de atividade cerebral, conhecidos como oscilações, na região visual. Oscilações são ondas coordenadas de disparo neural que ajudam diferentes partes do cérebro a se comunicarem entre si.
Após administrar os psicodélicos, a equipe observou um aumento nas ondas de baixa frequência (5 Hz) na área visual. Essas ondas lentas estimularam outra região chamada córtex retroesplenial, um centro-chave envolvido no acesso às memórias armazenadas. À medida que esta comunicação se torna mais forte, o cérebro entra num modo de funcionamento diferente. A consciência dos eventos externos atuais é prejudicada, enquanto a percepção depende mais de informações recordadas. Como descreveu o professor Dirk Jank, que liderou o estudo, a experiência é “um pouco como sonhar”.
Imagens cerebrais em tempo real revelam o processo
Para capturar essas mudanças, os cientistas usaram uma técnica avançada de imagem óptica que rastreia a atividade neural em toda a superfície do cérebro em tempo real. Os experimentos contaram com ratos especialmente projetados, desenvolvidos pelo professor Thomas Knopfel, da Universidade Batista de Hong Kong. Esses animais foram projetados para produzir proteínas fluorescentes em tipos específicos de células cerebrais.
Este método permite aos pesquisadores identificar a fonte do sinal gravado. “Portanto, sabemos em nossos experimentos que os sinais fluorescentes medidos se originam de células piramidais nas camadas corticais 2/3 e 5, que medeiam a comunicação entre as regiões do cérebro”, diz Jank. Essas células desempenham um papel central na transmissão de informações por todo o córtex.
Implicações para o tratamento da depressão e ansiedade
As descobertas também podem ajudar a refinar as terapias assistidas por psicodélicos. Os investigadores acreditam que, sob supervisão médica, estas substâncias podem alterar temporariamente a atividade cerebral de forma a promover a recuperação positiva da memória e enfraquecer pensamentos negativos profundamente arraigados.
“Quando usadas sob supervisão médica, essas substâncias podem condicionar temporariamente o cérebro para recordar seletivamente o conteúdo de memórias positivas e reconstruir padrões de pensamento aprendidos e excessivamente negativos, ou seja, ser capaz de aprender contextos negativos. Será emocionante ver como tais terapias serão mais personalizadas no futuro”, disse Jank.
Ao elucidar como os psicodélicos redirecionam a percepção do mundo exterior para as redes de memória interna, o estudo fornece uma explicação biológica clara tanto para as alucinações quanto para o crescente potencial terapêutico desses compostos.



