Novas pesquisas sugerem que a domesticação do trigo foi moldada por uma intensa luta evolutiva por luz e espaço. Esta competição incentiva as primeiras culturas a desenvolverem características que as ajudem a competir e a superar as plantas vizinhas, fornecendo novos conhecimentos sobre como as culturas se desenvolvem e como podem ser melhoradas no futuro.
A pesquisa, liderada pelo Dr. Yiqiang Shan e pelo professor Colin Osborne da Universidade de Sheffield, envolveu colaboradores da Universidade Autônoma de Madrid, da Universidade Rei Juan Carlos e da Universidade de Wageningen. A equipa investigou como as plantas selvagens responderam ao cultivo humano inicial e descobriu que as práticas de cultivo favoreciam fortemente os indivíduos que podiam competir de forma mais eficaz do que os seus antepassados selvagens.
Publicado em Biologia AtualA investigação mostra que a plantação de sementes no sector organizado criou um ambiente altamente competitivo. Ao longo de cerca de 1.000 a 2.000 anos, as plantas que conseguiam crescer mais rapidamente e dominar as suas vizinhas tinham maior probabilidade de sobreviver e reproduzir-se. Este processo levou ao surgimento do que os pesquisadores descrevem como tipos “guerreiros” nas primeiras variedades de trigo.
Surgimento de características de trigo “guerreiro”
Em comparação com o trigo selvagem, as primeiras variedades domesticadas eram muito melhores na competição por recursos em campos lotados. Eles desenvolveram características físicas que lhes deram uma vantagem, incluindo folhas maiores, crescimento mais ereto e capacidade de crescer apesar de estarem rodeados de outras plantas.
Para compreender melhor estas mudanças, os investigadores utilizaram um modelo de planta de formação funcional (FSP) para simular como o trigo cresce. A análise deles mostrou que o ângulo da folha desempenhou um papel fundamental. As plantas com folhas mais íngremes e verticais foram capazes de se elevar sobre as árvores vizinhas nos estágios iniciais de crescimento, capturando mais luz solar enquanto sombreavam os concorrentes abaixo.
Por que o trigo moderno é menos competitivo
“Embora a evolução tenha favorecido fortes concorrentes, a agricultura moderna concentra as culturas nos campos para obter elevados rendimentos. Esta prática requer culturas que sejam capazes de cooperar em vez de competir, e isto significa que os criadores modernos precisam de reverter os efeitos inúteis da evolução”, disse o professor Colin Osborne.
O estudo destaca uma grande mudança na forma como o trigo evoluiu ao longo do tempo. Embora as variedades antigas tenham sido desenvolvidas através de intensa competição, o trigo duro de “elite” moderno foi criado para ser menos agressivo. Nos sistemas agrícolas actuais, os agricultores dependem de herbicidas e fertilizantes para gerir os recursos, reduzindo a necessidade de as plantas competirem directamente.
Como resultado, os criadores selecionaram culturas com folhas menores e caules mais curtos. Essas características ajudam as plantas a concentrar sua energia na produção de colheitas, em vez de competir por luz e espaço.
Da competição à cooperação nas culturas modernas
As descobertas mostram que as características que outrora ajudaram o trigo a ter sucesso na agricultura inicial nem sempre são úteis na agricultura moderna. As mudanças nas práticas agrícolas remodelaram a forma como o trigo cresce e se comporta. A transição da agricultura antiga para a agricultura industrial em grande escala mudou fundamentalmente a composição e a estratégia de uma das culturas alimentares mais importantes do mundo.



