China com Ben Fogle (Canal 5)
Você pode pensar que muita TV é lixo. Mas espere até ver o que os chineses têm reservado para nós. Isso faria com que The Apprentice e Celeb Go Dating parecessem arte de alta qualidade.
A nação que deu ao mundo a absurda mania da dança do TikTok é agora a pioneira do ‘microdrama’ – novelas entregues em 50 ou 100 episódios, cada um com não mais de dois minutos.
O microdrama foi projetado para ser visto nas telas dos telefones, de modo que as cenas ficam lotadas e estáticas. Os personagens ficam cara a cara, representando emoções superaquecidas, cada episódio terminando em um momento de angústia.
É tão sutil quanto um megafone de boca, onde a única forma de atuação é a atuação exagerada. Tenho uma tolerância excepcionalmente alta ao impulso da TV, mas meia dúzia de doses de Microdrama vão me deixar gritando.
China com Ben Fogle vê o viajante de calças curtas lutando pelo estrelato do microdrama durante uma visita ao Hengdian World Studios, ao sul de Xangai. Com uma longa peruca preta presa aos ossos, ele interpretava um antigo guerreiro cuja missão era derrotar o vilão e resgatar a garota.
Quem era essa garota? Como ele caiu nas garras do vilão? Nunca saberemos, porque os microdramas não têm tempo para bobagens chatas do Oscar, como narração ou caracterização.
‘Deixe a garota em paz!’ Ben rugiu, apontando o dedo na boca dos canalhas. Um galo ataca ele, mas nosso herói desvia o golpe com sua espada e faz seu atacante voar. Há uma luta. E foi.
Aparentemente, os chineses transmitiram seis bilhões de episódios de microdrama nos últimos anos. Este é o futuro do entretenimento.
China com Ben Fogle visita o Hengdian World Studios, ao sul de Xangai, para ver o viajante de calças minúsculas tentar o estrelato no microdrama.
Fogle (filmado em Xangai) vê a sombra da censura estatal que se espalhou por toda a China
Ben ficou obviamente tão surpreso com isso quanto eu. Ele priorizou as artes tradicionais, embora estas estivessem em extinção mesmo em países impregnados de passado, como a China.
No sexto andar de um edifício de escritórios em Xangai, ele inventou um teatro de ópera improvisado onde o elenco superava o público. Em vez de vender ingressos, os artistas de 50 a 90 anos incentivaram o público a deixar gorjetas entre as músicas.
Todo mundo fuma sem parar, compartilha seus cigarros e, embora Ben aprecie o show, ele não consegue esconder sua ansiedade em sobreviver à fuga. Ele se sentia muito mais confortável em uma motocicleta elétrica, juntando-se a um motorista de entrega na chuva enquanto eles deixavam 300 pacotes pela cidade.
Ao contrário da maioria dos apresentadores de viagens, Ben não quer saber o que as pessoas fazem para se divertir. Ele está muito interessado no trabalho deles e em como eles ganham a vida.
Ele também salta à sombra da censura estatal que permeia todos os lugares. O smartphone chinês se recusou a responder algumas de suas perguntas. “IA com ideologia incorporada”, comentou. No estúdio de cinema, ele perguntou a um ator se um tema era impróprio para um microdrama. — Política — retrucou o homem, e seu rosto escureceu.



