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Saliva artificial feita de proteína de cana-de-açúcar protege os dentes contra ácidos e cáries

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Um novo tipo de saliva artificial, fornecida como enxaguatório bucal e produzida com a proteína CANECPI-5 da cana-de-açúcar modificada em laboratório, pode ajudar a proteger os dentes de pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Esses pacientes geralmente recebem radioterapia na boca, o que pode danificar as glândulas salivares e reduzir a produção de saliva. Como a saliva desempenha um papel importante no controle de bactérias e na manutenção da saúde bucal, sua perda pode levar a sérios problemas dentários.

Pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), no Brasil, descobriram que o CANECPI-5 forma um “escudo” protetor nos dentes. Essa camada ajuda a proteger o esmalte dos ácidos encontrados em bebidas como suco e álcool, bem como do ácido do estômago. Os resultados foram publicados no Journal of Dentistry.

Colaboração internacional em pesquisa e desenho de estudo

A pesquisa foi realizada durante o doutorado de Natara Dias Gómez da Silva na FOB-USP. O projeto inclui colaborações com cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no Brasil, da Universidade da Califórnia em São Francisco, nos EUA, e da Faculdade de Odontologia da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul.

A pesquisa, coordenada pela professora Marilia Afonso Rabelo Buzalaf da FOB-USP, faz parte do projeto temático “Modulação da película adquirida para controle da cárie dentária: desvendando mecanismos para viabilizar terapias”.

“Testamos um enxaguante bucal feito com CANECPI-5 aplicando essa solução em um pequeno pedaço de dente de animal durante um minuto, uma vez ao dia. Com base nesses resultados, realizaremos novas pesquisas para que possamos pensar na aplicação desse produto”, acrescentou Silva, primeiro autor do artigo.

Como a saliva artificial fortalece o esmalte dentário

“Este é o primeiro produto que utiliza o conceito de película adquirida (fina camada protetora que se forma rapidamente na superfície dos dentes) para tratar a xerostomia, que é a sensação de boca seca por falta de saliva. Utilizamos substâncias que vão reconstruir a composição das proteínas que se ligam aos dentes”, explica Buzalaf.

“Desenvolvemos um mecanismo no qual o CANECPI-5 se liga diretamente ao esmalte dentário, ajudando a tornar os dentes mais resistentes à ação dos ácidos produzidos pelas bactérias”, observou Silva.

Estudos demonstraram que CANECPI-5 funciona melhor quando combinado com flúor e xilitol. Em testes, os sprays de saliva artificial reduziram a atividade bacteriana e retardaram a desmineralização dos dentes – o processo pelo qual os dentes perdem cálcio e fosfato, tornando-os mais vulneráveis ​​às cáries.

Uma possível solução para cáries graves após tratamento de câncer

Este desenvolvimento é particularmente importante porque atualmente não existem produtos dedicados disponíveis para tratar cáries graves que ocorrem após radioterapia para câncer de cabeça e pescoço.

“A saliva artificial melhora a sensação de boca seca e feridas. Ajuda no desconforto e também combate bactérias.

A proteína CANECPI-5 já foi patenteada. O próximo passo é ampliar a produção por meio de parcerias com empresas interessadas em levar a tecnologia ao mercado.

“Já testamos a solução na forma de enxaguatório bucal, gel e filme orodispersível, que é um tipo de plástico que é colocado na língua e dissolve a proteína. Testamos em vários veículos e descobrimos que o CANECPI-5 funciona muito bem em todos eles.

Descoberta do CANECPI-5 a partir de pesquisas com cana-de-açúcar

Segundo Flavio Henrique Silva, professor do Departamento de Genética e Evolução da UFSCar que ajudou a desenvolver o CANECPI-5, o trabalho vem de pesquisas anteriores sobre cistatinas (família de proteínas envolvidas em diversos processos biológicos) realizadas no âmbito do Projeto Genoma da Cana (SUCEST, FAPESP).

“Naquela época, nosso grupo identificou e produziu a primeira cistatina da cana-de-açúcar na forma recombinante em bactérias. Chamamos-a de CANECPI-1. Em seguida, identificamos e produzimos outras cinco cistatinas da cana-de-açúcar, incluindo a CANECPI-5, que tinha forte atividade inibitória contra peptidases de cisteína, o que serviu para fortalecer essas proteínas em nosso alvo. Superfícies lisas, como cubetas de quartzo usadas para medir a atividade, permitiram que nossa proteína se ligasse ao esmalte dentário. levou a experimentos em parceria com a Prof. Marilia Buzalaf em conectando-se com

Os investigadores dizem que o CANECPI-5 é particularmente promissor porque protege o esmalte e ajuda a controlar as bactérias orais, tornando-o valioso para futuros tratamentos dentários.

“O CANECPI-5 também tem sido utilizado por outros colegas da odontologia, principalmente envolvendo periodontite. Também temos um projeto colaborativo com um colega da Universidade Federal de Oberland, utilizando implantes de esponja subcutânea em ratos, que mostrou que é capaz de reduzir novas dilatações (vasos sanguíneos) e fibrinogênese (formação de fibrina, proteína necessária para a coagulação do sangue), processos importantes na reparação de tecidos, criando moléculas candidatas para uso na cicatrização de feridas”, observa Silva.

Próximas etapas para saliva artificial e aplicações dentárias

Dentro do projeto temático, os pesquisadores continuarão a explorar como o CANECPI-5 interage com outros compostos.

Segundo Buzalaf, uma abordagem é combinar o CANECPI-5 com um peptídeo derivado da estaterina, proteína encontrada na saliva, para determinar se esse híbrido pode proteger melhor os dentes do ácido derivado do estômago. Outro objetivo é investigar seu papel potencial na prevenção da doença periodontal.

“Outra vertente do projeto temático é combinar o CANECPI-5 com a vitamina E porque essa vitamina atua como carreador, colocando a proteína em contato com o dente. Imaginamos que isso poderia facilitar a aplicação direta do produto na casa do paciente”, disse o pesquisador.

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